segunda-feira, 30 de março de 2015

quinta-feira, 19 de março de 2015

O mito de Tarzan
No começo do século XX, o escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs (1875-1950) deu início à publicação de uma série de histórias cujo personagem central era um homem criado desde criança por grandes macacos na África. Filho de um casal de nobres ingleses mortos após o naufrágio do navio em que viajavam pela costa africana, seu nome era John Greystoke. Os macacos que o criaram, porém, o chamavam de Tarzan. Sucesso imediato entre os leitores, Tarzan logo passou para as telas de cinema e para as histórias em quadrinhos, encantando sucessivas gerações.
Nas histórias de Burroughs, Tarzan aprendeu a ler sozinho, com a ajuda apenas de um livro encontrado em uma cabana. Além disso, demonstrou sentimentos nobres e humanos e defendia valores semelhantes aos da sociedade em que viveu o escritor. Na verdade, o autor criou Tarzan segundo a imagem que tinha do homem europeu na época vitoriana: "civilizado", incapaz de atos de violência gratuita, justiceiro e... "superior" aos africanos. Tratava-se, portanto, de uma construção ideológica que reproduzia as relações de dominação das potências europeias sobre os povos da África na época do imperialismo (séculos XIX e primeira metade do século XX). Por essa época, os líderes das potências europeias justificavam essa dominação afirmando que os europeus iam para a África difundir o que chamavam de "civilização" entre povos "bárbaros! e "atrasados".
Como obras de ficção, os livros de Tarzan sempre atraíram o interesse de jovens leitores. Como fonte de conhecimento, entretanto, apresentam uma imagem falsa e deformada da África, criando um personagem mítico, distante da realidade. Como vimos, os indivíduos da espécie humana só se tornam verdadeiramente humanos por intermédio da convivência e da interação em um meio social, ou seja, com seres de sua espécie. Como outras construções ideológicas, Tarzan contribuiu para difundir e legitimar os interesses imperialistas de dominação dos povos africanos entre os séculos XIX e XX.

texto retirado do livro de Sociologia do 1º ano do ensino médio. Sistema Ser de Ensino. Autor Pérsio Santos de Oliveira, página 5.
Por que estudar Filosofia?
Ao se questionar sobre o mundo e a sociedade, o jovem amplia a visão que tem de seu
papel na comunidade e adquire significados concretos para sua existência. O estímulo à
curiosidade e ao debate favorece a postura crítica no cotidiano. Em vez de receber respostas
prontas, a disciplina ensina o aluno a fazer perguntas e a buscar suas próprias respostas. Ao
aumentar a compreensão sobre o mundo atual, fica mais fácil entender os conteúdos de
História e de Geografia. Também há benefícios para a expressão escrita e oral na aula de
Língua Portuguesa.
MINAMI, Thiago. Filosofia e Sociologia no Ensino Médio: quais as vantagens? Revista Nova escola. São Paulo:
Abril, 2006. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/online/reportagem/repsemanal_205049.shtml>.
Adaptado

A atitude filosófica
Imaginemos alguém que tomasse a decisão de não aceitar as opiniões estabelecidas e
começasse a fazer perguntas que os outros julgam estranhas e inesperadas. Em vez de “Que
horas são?” ou “Que dia é hoje?”, perguntasse: “O que é o tempo?”. Em vez de dizer “Está
sonhando” ou “Ficou maluca”, quisesse saber: “O que é o sonho, a loucura, a razão?”.
Suponhamos que essa pessoa fosse substituindo suas afirmações por perguntas e em
vez de dizer “Onde há fumaça, há fogo” ou “Não saia na chuva para não ficar resfriado”,
perguntasse: “O que é causa?”, “O que é efeito?” (...).
Em vez de gritar “Mentiroso!”, questionasse: “O que é a verdade?”, “O que é o
falso?”, “O que é o erro?”, “O que é a mentira?”, “Quando existe verdade e por quê?”,
“Quando existe ilusão e por quê?”.
(...)
E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas ideias, os
mesmos gostos, as mesmas preferências e os mesmos valores, preferisse analisar: “O que é
um valor?”, “O que é um valor moral?”, “O que é um valor artístico?”, “O que é a moral?, “O
que é a vontade?”, “O que é a liberdade?”.
Alguém que tomasse essa decisão estaria tomando distância da vida cotidiana e de si
mesmo, teria passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam,
silenciosamente, nossa existência. Ao tomar essa distância, estaria interrogando a si mesmo,
desejando conhecer por que cremos no que cremos, por que sentimos o que sentimos e o que
são nossas crenças e nossos sentimentos. Esse alguém estaria começando a cumprir o que
dizia o oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. E estaria começando a adotar o que
chamamos de atitude filosófica.
Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é Filosofia?” poderia ser: “A decisão
de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os valores,
os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los
investigado e compreendido”.
(...)
A atitude crítica
A primeira característica da atitude filosófica é negativa, isto é, um dizer não ao senso
comum, aos “pré-conceitos”, aos “pré-juízos”, aos fatos e às ideias da experiência cotidiana,
ao que “todo mundo diz e pensa”, ao estabelecido. É colocar entre parênteses nossas crenças
para poder interrogar quais são suas causas e qual é seu sentido.
A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre
o que são as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós
mesmos. É também uma interrogação sobre o porquê e o como disso tudo e de nós próprios.
“O que é?”, “Por que é?”, “Como é?”. Essas são as indagações fundamentais da atitude
filosófica.
A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos de
atitude crítica. (...)
(...)
A Filosofia começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do dia a dia para que
possam ser avaliados racional e criticamente, admitindo que não sabemos o que
imaginávamos saber. Ou, como dizia Sócrates, começamos a buscar o conhecimento quando
somos capazes de dizer: “Só sei que nada sei”.
Para Platão, o discípulo de Sócrates, a Filosofia começa com a admiração ou, como
escreve seu discípulo Aristóteles, a Filosofia começa com o espanto “... pois os homens
começam e começaram sempre a filosofar movidos pelo espanto (...). Aquele que se coloca
uma dificuldade e se espanta reconhece sua própria ignorância. (...) De sorte que, se
filosofaram, foi para fugir da ignorância”.
Admiração e espanto significam que reconhecemos nossa ignorância e exatamente por
isso podemos superá-la. Nós nos espantamos quando, por meio de nosso pensamento,
tomamos distância do nosso mundo costumeiro, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto
antes, como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios de
comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemos acabando de
nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é, por que é e como
é o mundo, e precisássemos perguntar o que é, porque é e como é o mundo, e precisássemos
perguntar também o que somos, por que somos e como somos.
(...)
Em busca de uma definição da Filosofia
Quando começamos a estudar Filosofia, somos logo levados a buscar o que ela é.
Nossa primeira surpresa surge ao descobrirmos que não há apenas uma definição da Filosofia,
mas várias. A segunda surpresa vem ao percebermos que, além de várias, as definições não
parecem poder ser reunidas numa só e mais ampla. Eis porque muitos, cheios de
perplexidade, indagam: “Afinal, o que é a Filosofia que nem sequer consegue dizer o que ela
é?”
Uma primeira aproximação nos mostra pelo menos quatro definições gerais do que
seria a Filosofia:
1. Visão de mundo de um povo, de uma civilização ou de uma cultura. Nessa definição, a
Filosofia corresponderia, de modo vago e geral, ao conjunto de ideias, valores e
práticas pelos quais uma sociedade apreende e compreende o mundo e a si mesma,
definindo para si o tempo e o espaço, o sagrado e o profano, o bom e o mau, o justo e
o injusto, o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o possível e o impossível, o
contingente e o necessário.
Qual o problema dessa definição? Por um lado, ela se parece com a noção de “minha
filosofia” ou a “filosofia da empresa”; por outro, ela é tão genérica e tão ampla que
não permite, por exemplo, diferenciar filosofia e religião, filosofia e arte, filosofia e
ciência. Na verdade, essa definição identifica Filosofia e Cultura, pois esta é uma visão
de mundo coletiva que se exprime em ideias, valores e práticas de uma sociedade
determinada.
A definição, portanto, não consegue acercar-se da especificidade do trabalho filosófico
e por isso não podemos aceitá-la como definição de Filosofia, mas apenas como uma
expressão que contém ou indica alguns aspectos que poderão entrar na sua definição.
2. Sabedoria de vida. Nessa definição, a Filosofia é identificada com a atividade de algumas
pessoas que pensam sobre a vida moral, dedicando-se à contemplação do mundo e dos
outros seres para aprender a controlar seus desejos, sentimentos e impulsos a dirigir a
própria vida de modo ético e sábio. A Filosofia seria uma escola de vida ou uma arte
do bem-viver; seria uma contemplação do mundo e dos homens para nos conduzir a
uma vida justa, sábia e feliz, ensinando-nos o domínio sobre nós mesmos, sobre
nossos impulsos, desejos e paixões. Essa definição, porém, nos diz, de modo vago, o
que se espera da Filosofia (a sabedoria interior), mas não o que é e o que faz a
Filosofia e, por isso, também não podemos aceitá-la, mas apenhas reconhecer que nela
está presente um dos aspectos do trabalho filosófico.
3. Esforço racional para conceber o Universo como uma totalidade ordenada e dotada
de sentido. Nessa definição, atribui-se à Filosofia a tarefa de conhecer a realidade
inteira, provando que o Universo é uma totalidade, isto é, algo estruturado e ordenado
por relações de causa e efeito, e que essa totalidade é racional, ou seja, possui sentido
e finalidade compreensíveis pelo pensamento humano.
(...)
No entanto, esta definição também é problemática, porque dá à Filosofia a tarefa de
oferecer uma explicação e uma compreensão totais sobre o Universo, elaborando um
sistema universal ou um sistema do mundo, mas sabemos, hoje, que essa tarefa é
impossível.
(...) Há, nos dias de hoje, pelo menos duas limitações principais a essa pretensão
totalizadora: em primeiro lugar, a filosofia e as ciências foram se separando no correr
da história e o saber científico se dividiu em vários poderes particulares, cada qual
com seu campo próprio de investigação e de explicação de um aspecto determinado da
realidade. Em outras palavras, a Filosofia compartilha a explicação da realidade com
as ciências e as artes, cada uma das quais definindo um aspecto e um campo da
realidade para estudo (no caso das ciências) e para a expressão (no caso das artes), já
não sendo admissível que haja uma única disciplina teórica que possa abranger
sozinha a totalidade dos conhecimentos ou o conhecimento universal do Universo. Em
segundo lugar, porque a própria Filosofia já não admite que seja possível um único
sistema de pensamento que ofereça uma única explicação para o todo da realidade,
pois esta permanece aberta e convida a múltiplas perspectivas de conhecimentos e
interpretações. Por isso, essa definição também não pode ser aceita, embora contenha
aspectos importantes da atividade filosófica.
4. Fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas. (...) Como
fundamentação teórica e crítica, a Filosofia ocupa-se com os princípios, as causas e as
condições do conhecimento que pretenda ser racional e verdadeiro; com a origem, a
forma e o conteúdo dos valores éticos, políticos, artísticos e culturais; com a
compreensão das causas e das formas da ilusão e do preconceito no plano individual e
coletivo; com os princípios, as causas e as condições das transformações históricas dos
conceitos, das ideias, dos valores e das práticas humanas.
Por isso, a Filosofia volta-se para o estudo das várias formas de conhecimento
(percepção, imaginação, memória, linguagem, inteligência, experiência, reflexão) e
dos vários tipos de atividades interiores e comportamentos externos dos seres humanos
como expressões da vontade, do desejo e das paixões, procurando descrever as formas
e os conteúdos dessas formas de conhecimento e desses tipos de atividade e
comportamento como relação do ser humano com o mundo, consigo mesmo e com os
outros.
Para realizar seu trabalho, a Filosofia investiga e interpreta o significado das ideias
gerais como: realidade, mundo, natureza, cultura, história, verdade, falsidade,
humanidade, temporalidade, espacialidade, qualidade, quantidade, subjetividade,
objetividade, diferença, repetição, semelhança, conflito, contradição, mudança,
necessidade, possibilidade, probabilidade, etc.
(...)
A filosofia não é ciência: é uma reflexão sobre os fundamentos da ciência, isto é, sobre
procedimentos e conceitos científicos. Não é religião: é uma reflexão sobre os
fundamentos da religião, isto é, sobre as causas, origens e formas das crenças
religiosas. Não é arte: é uma reflexão sobre os fundamentos da arte, isto é, sobre os
conteúdos, as formas, as significações das obras de arte e do trabalho artístico. Não é
sociologia nem psicologia, mas a interpretação e avaliação crítica dos conceitos e
métodos da sociologia e da psicologia. Não é política, mas interpretação e reflexão
sobre a origem, a natureza e as formas do poder e suas mudanças. Não é história, mas
reflexão sobre o sentido dos acontecimentos enquanto inseridos no tempo e
compreensão do que seja o próprio tempo.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2008. p. 16-23. Adaptado.
Sugestões de leitura e de filmes para aprofundamento do
tema
Considerando o critério da formação cultural do professor, acredita-se que a presente
proposta só pode vir a ser acolhida significantemente, se o docente estiver comprometido com
a continuidade de sua formação (...). Além disso, se o aprimoramento é uma finalidade de
todos, e não apenas do educando, não parece razoável supor que profissionais inteligentes
simplesmente decidam parar de ler, de aprender... Ainda que o professor de Filosofia no
Ensino Médio não esteja obrigado, por dever de ofício, a produzir novidades intelectuais,
sendo suficiente trabalhar como divulgador e como formador de público leitor/agente
competente, como professor de Filosofia está (desde sempre) convocado a honrar uma
tradição cujo motivo originário, historicamente renovado, é o pathos da perplexidade, a troca
de certezas por dúvidas e a busca de esclarecimento.
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros
Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – Ciências Humanas e suas tecnologias. Brasília, 2000. p. 52.
Livros
ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1982.
___________. História da Filosofia. Lisboa: Presença, 1969. v. 14.
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria da Educação Fundamental.
Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio – Ciências Humanas e suas tecnologias.
Brasília, 2000.
BRÉHIER, E. História da Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1977. v. 6.
CHÂTELET, F. (Org.) História da Filosofia. Ideias, doutrinas. Rio de Janeiro: Zahar, 1974. v.
8.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2008.
JAPIASSU, H. Dicionário de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.
LALANDE, A. Vocabulário técnico e crítico da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
Filmes
Janela da alma. Walter Carvalho e João Jardim, Brasil, 2002. Documentário sobre o olhar
no mundo contemporâneo, com depoimentos de pessoas que têm alguma deficiência visual,
como o escritor José Saramago, o vereador mineiro Arnaldo Godoy, o diretor alemão Win
Wenders, o músico Hermeto Paschoal e o fotógrafo franco-eslavo Eugen Bavcar, que é
cego.
Nós que aqui estamos por vós esperamos. Marcelo Masagão, Brasil, 1999.
Documentário. Filme feito com fragmentos biográficos de pequenos e grandes personagens
que viveram no século XX. O filme põe em discussão o caráter banal que a morte adquiriu
no século XX até os nossos dias.
O enigma de Kasper Hauser. Werner Herzog, Alemanha, 1974. Homem que aparenta não
ter tido contato com a civilização surge na cidade de Nuremberg e aos poucos toma
consciência da estranheza que causa à sociedade, ao mesmo tempo que é repelido por ela.
O sétimo selo. Ingmar Bergman, Suécia, De volta das Cruzadas, na época da peste
negra e da Inquisição, o cavaleiro Antonius encontra a Morte, que o desafia para uma
partida de xadrez.