quinta-feira, 19 de março de 2015

Por que estudar Filosofia?
Ao se questionar sobre o mundo e a sociedade, o jovem amplia a visão que tem de seu
papel na comunidade e adquire significados concretos para sua existência. O estímulo à
curiosidade e ao debate favorece a postura crítica no cotidiano. Em vez de receber respostas
prontas, a disciplina ensina o aluno a fazer perguntas e a buscar suas próprias respostas. Ao
aumentar a compreensão sobre o mundo atual, fica mais fácil entender os conteúdos de
História e de Geografia. Também há benefícios para a expressão escrita e oral na aula de
Língua Portuguesa.
MINAMI, Thiago. Filosofia e Sociologia no Ensino Médio: quais as vantagens? Revista Nova escola. São Paulo:
Abril, 2006. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/online/reportagem/repsemanal_205049.shtml>.
Adaptado

A atitude filosófica
Imaginemos alguém que tomasse a decisão de não aceitar as opiniões estabelecidas e
começasse a fazer perguntas que os outros julgam estranhas e inesperadas. Em vez de “Que
horas são?” ou “Que dia é hoje?”, perguntasse: “O que é o tempo?”. Em vez de dizer “Está
sonhando” ou “Ficou maluca”, quisesse saber: “O que é o sonho, a loucura, a razão?”.
Suponhamos que essa pessoa fosse substituindo suas afirmações por perguntas e em
vez de dizer “Onde há fumaça, há fogo” ou “Não saia na chuva para não ficar resfriado”,
perguntasse: “O que é causa?”, “O que é efeito?” (...).
Em vez de gritar “Mentiroso!”, questionasse: “O que é a verdade?”, “O que é o
falso?”, “O que é o erro?”, “O que é a mentira?”, “Quando existe verdade e por quê?”,
“Quando existe ilusão e por quê?”.
(...)
E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas ideias, os
mesmos gostos, as mesmas preferências e os mesmos valores, preferisse analisar: “O que é
um valor?”, “O que é um valor moral?”, “O que é um valor artístico?”, “O que é a moral?, “O
que é a vontade?”, “O que é a liberdade?”.
Alguém que tomasse essa decisão estaria tomando distância da vida cotidiana e de si
mesmo, teria passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam,
silenciosamente, nossa existência. Ao tomar essa distância, estaria interrogando a si mesmo,
desejando conhecer por que cremos no que cremos, por que sentimos o que sentimos e o que
são nossas crenças e nossos sentimentos. Esse alguém estaria começando a cumprir o que
dizia o oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. E estaria começando a adotar o que
chamamos de atitude filosófica.
Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é Filosofia?” poderia ser: “A decisão
de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os valores,
os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los
investigado e compreendido”.
(...)
A atitude crítica
A primeira característica da atitude filosófica é negativa, isto é, um dizer não ao senso
comum, aos “pré-conceitos”, aos “pré-juízos”, aos fatos e às ideias da experiência cotidiana,
ao que “todo mundo diz e pensa”, ao estabelecido. É colocar entre parênteses nossas crenças
para poder interrogar quais são suas causas e qual é seu sentido.
A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma interrogação sobre
o que são as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós
mesmos. É também uma interrogação sobre o porquê e o como disso tudo e de nós próprios.
“O que é?”, “Por que é?”, “Como é?”. Essas são as indagações fundamentais da atitude
filosófica.
A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos de
atitude crítica. (...)
(...)
A Filosofia começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do dia a dia para que
possam ser avaliados racional e criticamente, admitindo que não sabemos o que
imaginávamos saber. Ou, como dizia Sócrates, começamos a buscar o conhecimento quando
somos capazes de dizer: “Só sei que nada sei”.
Para Platão, o discípulo de Sócrates, a Filosofia começa com a admiração ou, como
escreve seu discípulo Aristóteles, a Filosofia começa com o espanto “... pois os homens
começam e começaram sempre a filosofar movidos pelo espanto (...). Aquele que se coloca
uma dificuldade e se espanta reconhece sua própria ignorância. (...) De sorte que, se
filosofaram, foi para fugir da ignorância”.
Admiração e espanto significam que reconhecemos nossa ignorância e exatamente por
isso podemos superá-la. Nós nos espantamos quando, por meio de nosso pensamento,
tomamos distância do nosso mundo costumeiro, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto
antes, como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios de
comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemos acabando de
nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é, por que é e como
é o mundo, e precisássemos perguntar o que é, porque é e como é o mundo, e precisássemos
perguntar também o que somos, por que somos e como somos.
(...)
Em busca de uma definição da Filosofia
Quando começamos a estudar Filosofia, somos logo levados a buscar o que ela é.
Nossa primeira surpresa surge ao descobrirmos que não há apenas uma definição da Filosofia,
mas várias. A segunda surpresa vem ao percebermos que, além de várias, as definições não
parecem poder ser reunidas numa só e mais ampla. Eis porque muitos, cheios de
perplexidade, indagam: “Afinal, o que é a Filosofia que nem sequer consegue dizer o que ela
é?”
Uma primeira aproximação nos mostra pelo menos quatro definições gerais do que
seria a Filosofia:
1. Visão de mundo de um povo, de uma civilização ou de uma cultura. Nessa definição, a
Filosofia corresponderia, de modo vago e geral, ao conjunto de ideias, valores e
práticas pelos quais uma sociedade apreende e compreende o mundo e a si mesma,
definindo para si o tempo e o espaço, o sagrado e o profano, o bom e o mau, o justo e
o injusto, o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o possível e o impossível, o
contingente e o necessário.
Qual o problema dessa definição? Por um lado, ela se parece com a noção de “minha
filosofia” ou a “filosofia da empresa”; por outro, ela é tão genérica e tão ampla que
não permite, por exemplo, diferenciar filosofia e religião, filosofia e arte, filosofia e
ciência. Na verdade, essa definição identifica Filosofia e Cultura, pois esta é uma visão
de mundo coletiva que se exprime em ideias, valores e práticas de uma sociedade
determinada.
A definição, portanto, não consegue acercar-se da especificidade do trabalho filosófico
e por isso não podemos aceitá-la como definição de Filosofia, mas apenas como uma
expressão que contém ou indica alguns aspectos que poderão entrar na sua definição.
2. Sabedoria de vida. Nessa definição, a Filosofia é identificada com a atividade de algumas
pessoas que pensam sobre a vida moral, dedicando-se à contemplação do mundo e dos
outros seres para aprender a controlar seus desejos, sentimentos e impulsos a dirigir a
própria vida de modo ético e sábio. A Filosofia seria uma escola de vida ou uma arte
do bem-viver; seria uma contemplação do mundo e dos homens para nos conduzir a
uma vida justa, sábia e feliz, ensinando-nos o domínio sobre nós mesmos, sobre
nossos impulsos, desejos e paixões. Essa definição, porém, nos diz, de modo vago, o
que se espera da Filosofia (a sabedoria interior), mas não o que é e o que faz a
Filosofia e, por isso, também não podemos aceitá-la, mas apenhas reconhecer que nela
está presente um dos aspectos do trabalho filosófico.
3. Esforço racional para conceber o Universo como uma totalidade ordenada e dotada
de sentido. Nessa definição, atribui-se à Filosofia a tarefa de conhecer a realidade
inteira, provando que o Universo é uma totalidade, isto é, algo estruturado e ordenado
por relações de causa e efeito, e que essa totalidade é racional, ou seja, possui sentido
e finalidade compreensíveis pelo pensamento humano.
(...)
No entanto, esta definição também é problemática, porque dá à Filosofia a tarefa de
oferecer uma explicação e uma compreensão totais sobre o Universo, elaborando um
sistema universal ou um sistema do mundo, mas sabemos, hoje, que essa tarefa é
impossível.
(...) Há, nos dias de hoje, pelo menos duas limitações principais a essa pretensão
totalizadora: em primeiro lugar, a filosofia e as ciências foram se separando no correr
da história e o saber científico se dividiu em vários poderes particulares, cada qual
com seu campo próprio de investigação e de explicação de um aspecto determinado da
realidade. Em outras palavras, a Filosofia compartilha a explicação da realidade com
as ciências e as artes, cada uma das quais definindo um aspecto e um campo da
realidade para estudo (no caso das ciências) e para a expressão (no caso das artes), já
não sendo admissível que haja uma única disciplina teórica que possa abranger
sozinha a totalidade dos conhecimentos ou o conhecimento universal do Universo. Em
segundo lugar, porque a própria Filosofia já não admite que seja possível um único
sistema de pensamento que ofereça uma única explicação para o todo da realidade,
pois esta permanece aberta e convida a múltiplas perspectivas de conhecimentos e
interpretações. Por isso, essa definição também não pode ser aceita, embora contenha
aspectos importantes da atividade filosófica.
4. Fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas. (...) Como
fundamentação teórica e crítica, a Filosofia ocupa-se com os princípios, as causas e as
condições do conhecimento que pretenda ser racional e verdadeiro; com a origem, a
forma e o conteúdo dos valores éticos, políticos, artísticos e culturais; com a
compreensão das causas e das formas da ilusão e do preconceito no plano individual e
coletivo; com os princípios, as causas e as condições das transformações históricas dos
conceitos, das ideias, dos valores e das práticas humanas.
Por isso, a Filosofia volta-se para o estudo das várias formas de conhecimento
(percepção, imaginação, memória, linguagem, inteligência, experiência, reflexão) e
dos vários tipos de atividades interiores e comportamentos externos dos seres humanos
como expressões da vontade, do desejo e das paixões, procurando descrever as formas
e os conteúdos dessas formas de conhecimento e desses tipos de atividade e
comportamento como relação do ser humano com o mundo, consigo mesmo e com os
outros.
Para realizar seu trabalho, a Filosofia investiga e interpreta o significado das ideias
gerais como: realidade, mundo, natureza, cultura, história, verdade, falsidade,
humanidade, temporalidade, espacialidade, qualidade, quantidade, subjetividade,
objetividade, diferença, repetição, semelhança, conflito, contradição, mudança,
necessidade, possibilidade, probabilidade, etc.
(...)
A filosofia não é ciência: é uma reflexão sobre os fundamentos da ciência, isto é, sobre
procedimentos e conceitos científicos. Não é religião: é uma reflexão sobre os
fundamentos da religião, isto é, sobre as causas, origens e formas das crenças
religiosas. Não é arte: é uma reflexão sobre os fundamentos da arte, isto é, sobre os
conteúdos, as formas, as significações das obras de arte e do trabalho artístico. Não é
sociologia nem psicologia, mas a interpretação e avaliação crítica dos conceitos e
métodos da sociologia e da psicologia. Não é política, mas interpretação e reflexão
sobre a origem, a natureza e as formas do poder e suas mudanças. Não é história, mas
reflexão sobre o sentido dos acontecimentos enquanto inseridos no tempo e
compreensão do que seja o próprio tempo.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2008. p. 16-23. Adaptado.
Sugestões de leitura e de filmes para aprofundamento do
tema
Considerando o critério da formação cultural do professor, acredita-se que a presente
proposta só pode vir a ser acolhida significantemente, se o docente estiver comprometido com
a continuidade de sua formação (...). Além disso, se o aprimoramento é uma finalidade de
todos, e não apenas do educando, não parece razoável supor que profissionais inteligentes
simplesmente decidam parar de ler, de aprender... Ainda que o professor de Filosofia no
Ensino Médio não esteja obrigado, por dever de ofício, a produzir novidades intelectuais,
sendo suficiente trabalhar como divulgador e como formador de público leitor/agente
competente, como professor de Filosofia está (desde sempre) convocado a honrar uma
tradição cujo motivo originário, historicamente renovado, é o pathos da perplexidade, a troca
de certezas por dúvidas e a busca de esclarecimento.
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros
Curriculares Nacionais para o Ensino Médio – Ciências Humanas e suas tecnologias. Brasília, 2000. p. 52.
Livros
ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1982.
___________. História da Filosofia. Lisboa: Presença, 1969. v. 14.
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria da Educação Fundamental.
Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio – Ciências Humanas e suas tecnologias.
Brasília, 2000.
BRÉHIER, E. História da Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1977. v. 6.
CHÂTELET, F. (Org.) História da Filosofia. Ideias, doutrinas. Rio de Janeiro: Zahar, 1974. v.
8.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2008.
JAPIASSU, H. Dicionário de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.
LALANDE, A. Vocabulário técnico e crítico da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
Filmes
Janela da alma. Walter Carvalho e João Jardim, Brasil, 2002. Documentário sobre o olhar
no mundo contemporâneo, com depoimentos de pessoas que têm alguma deficiência visual,
como o escritor José Saramago, o vereador mineiro Arnaldo Godoy, o diretor alemão Win
Wenders, o músico Hermeto Paschoal e o fotógrafo franco-eslavo Eugen Bavcar, que é
cego.
Nós que aqui estamos por vós esperamos. Marcelo Masagão, Brasil, 1999.
Documentário. Filme feito com fragmentos biográficos de pequenos e grandes personagens
que viveram no século XX. O filme põe em discussão o caráter banal que a morte adquiriu
no século XX até os nossos dias.
O enigma de Kasper Hauser. Werner Herzog, Alemanha, 1974. Homem que aparenta não
ter tido contato com a civilização surge na cidade de Nuremberg e aos poucos toma
consciência da estranheza que causa à sociedade, ao mesmo tempo que é repelido por ela.
O sétimo selo. Ingmar Bergman, Suécia, De volta das Cruzadas, na época da peste
negra e da Inquisição, o cavaleiro Antonius encontra a Morte, que o desafia para uma
partida de xadrez.

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